Tempestades

Era noite fria
Caturros adornavam a casa inteira
Jias, sapos, girinos, muriçocas…
Numa lagoa que cobriam nossa intimidades
Na rua, cápri latia feito lobo no cio
Ferós respondia
As ovelhas do velho Dico se arrumavam
No quarto da casa velha,
os bruguelos dormiam um sono tranquilo que não acaba mais
A mãe vigiava as crias, o pai atento às ‘meançabas’
A segurança a Deus pertencia
Na sala, um tabuleiro velho
O supridor da boia de todos os dias
Na janela uma tábua de ‘madeirite’
Ostentava o time de preferência
Nas paredes, gaiolas que prendiam a liberdade
No quartinho, uma tarrafa de fio estendida
No jirau, peças de louça de fina estampa
Pratos de estanho e latas de doce
Embaixo, a lama fedorenta da sujeira dos dias
A chuva caia no teto esburacado
O vento zinia…
Os meninos nem se importavam
E o seus pais sonhavam acordados!
Nos cantos, as redes esticadas com lugares de status
As luzes do céu assustavam
Minha mãe rezava e ajoelhava-se em clemência à Santa
Perpétuo Socorro, das Graças e Bom Jesus!
Não havia ninguém na rua
Só vaga-lumes indicavam caminhos…
Do majestoso, um vento frito passava da janela grande
Assim, o tempo passou
Mas a tempestade ficou
Nilson Ericeira
(Robrielle)



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