POESIA DE TODOS OS DIAS: ‘O verso da carne’

O verso da carne
Ainda há pouco procurei me redimir de meus pecados.
Busquei uma neutralidade imprevisível e impossível.
Quase morro de tanta opressão.
Se não me bastassem meus cárceres,
vem-me a minha autocensura.
Procurei meu fio num novelo de vida.
Deixei me escapar de meus próprios nós.
Libertei-me desses regimes!
Todos somos um tanto vítimas e um tanto algozes.
Não me bastasse os olhos, a visão, a percepção, o olfato.
Eu quero cortar a minha própria carne e, num escárnio,
minha própria mutilação.
Já disse que não serei pária de minhas alucinações,
nem cego de minha própria visão.
Tenho dúvidas se a minha renúncia me liberta ou se me aprisiona.
Se tenho fome não é só de comida.
Mesmo em mesa servida, serei hostil enquanto não me saciar.
Talvez o meu único pedido é que me deixem ser eu.
E se no meu próprio verso tiver que me devorar.
Sirvam-se antes de mim, pois não desejo sentir
o gosto amargo dos meus pecados.
Embora tanto êxtase tivera em senti-los.
Mas antes eu tivera feito versos sem carne e sem desejos.
E como um monge não me condenaria no meu silêncio.
Nilson Ericeira
(Robrielle)



Publicar comentário