26 de fevereiro de 2024

O charme do chamató, o toc-toc dos pés e a saudade que ficou

MEMÓRIAS PÓSTUMAS

Por Paulo César
Ericeira Sousa

EM 12.09.2015

O charme do chamató, o
toc-toc dos pés e a saudade que ficou

Arari
tem uma penca de grandes poetas, escritores, romancistas, historiadores, repentistas
e compositores. É uma legião de bons homens de letras, que precisariam de
vários livros e centenas de anos para falar de todos eles.

Hoje
sentir um verdadeiro ‘toc-toc’ no meu coração ao recordar coisas vivas na
memória de Arari. E seguindo a minha viagem que beira à nostalgia, vejo dizer
que os poetas apaixonados afirmam que tudo na primeira vez é sempre lembrado. O
primeiro beijo, o abraço primeiro, a primeira vez, tudo nunca esquecido. Assim
também é o primeiro chamató. Esse confesso aos senhores ninguém esquece, pois eu
nunca esqueci do meu. Foi um presente do meu avô paterno Eulálio (Palaio). Tinha
mais ou menos 6 anos idade e meu inesquecível Palaio adquiriu o meu primeiro
par de chamató no comércio de ‘seu’ Dico Batalha. O velho Dico Batalha (de
saudosa memória) tinha um comércio no final da Franca com o Carne Seca. Lá ele
vendia de tudo: farinha, arroz, querosene, alpercatas (sandálias), tamanco
campeiro e o famoso chamató.

O
chamató era diferente do tamanco campeiro.Tinha na parte da frente um rosto com
várias tiras costuradas e às vezes colorida, a gosto do freguês.Era geralmente
de visgueiro ou de paparaúba. Chamató no pé! Era bom de lama! Pau para toda
obra! Se a minha vó não tirasse do meu pé, dormia com ele. Meu chamató era meu
melhor amigo e não fazia calos. Fazia questão de arrastar o pé, pois queria que
as pessoas percebessem que eu estava com o meu chamató. Era comum em Arari as
pessoas se exibirem com os seus tamancos de tiras coloridas e solado de madeira.

Mas,
naquela época, para que você pudesse usar um lindo chamató, era preciso
encontrar um bom operário do ramo, coisa que em Arari não faltava quem
produzisse um bom chamató.

Mesmo
não querendo ser injusto com uma verdadeira safra de bons artesãos, cito de boa
lembrança o senhor Albremiro Pestana, mais conhecido com Nhoca. Era um
profissional de mão cheia.Os chamatós de Nhoca eram bem feitos e delicados.
Outro que também confeccionava esses calçados de madeira era um grande mestre-artesão
de nome Estevão Arquelau, mais conhecido com Milico. Um mestre dos mestres,
pois era uma verdadeira obra de arte os chamatós e tamancos campeiros do seu Milico.

Lembro
ainda que os tamancos e chamatós eram vendidos nos comércios de Arari: Dico
Prazeres (de saudosa memória), Raimundo Chaves (de saudosa memória), Balbino
Machado e outros.

Para
não cometer nenhuma injustiça, o seu Bidoquinha e Mundoca Sousa também
fabricavam tamancos e chamatós. Seu Mundoca Sousa ao lado de dona Teresinha teciam
os mais variados modelos e colocavam na pequena vitrine da sua fábrica, que era
situada na Rua Pedro Leandro Fernandes.

Recordar
o meu chamató foi uma inspiração do meu parente Juca Chaves (Juaca), que me
mandou notícias do céu e que ele ainda possui um chamató fabricado nada mais
nada menos que por Nhoca o seu sobrinho querido.

Essas
lembranças são reais, tão reais que ainda lembro do jeito de seu Dico Prazeres
atravessando a rua com seu chamató! Ele fazias questão de erguer um pouco a
calça para que o chamató fosse exibido. E nesse ‘toc-toc’ as lembranças vivas
seguem construindo cenários e revivendo nova ideias, na certeza de que
logo-logo trarei outras falas que nos fazem reviver o que é vivo em nós.

 

PC
ERICEIRA