Quase nu

Sem vestes sem posses
Quase sem nada para lhes cobrir as vergonhas
Correndo ruas com os bolsos cheios de bolinhas de gude
Com as costelas à flor da pele
Aliás, mais pele que osso
Assim venci a nudez da vida
As fomes que em me doíam
Para cobrir meu ser com caráter e vergonha
Pus os pés no mundo e me atirei nele
Morrendo de medos, sofri e chorei na solidão da república
Sempre preocupado com o que me vestia
A fome passou a ser um tempero normal
Antes um imperativo à necessidade de ter vergonha
Inocente ainda, nem sabia o que era estética
Mas a pobreza material dera lugar ao caráter
Ainda que com as agruras da vida
Esta se ofereceu como lições e desafios
A fim de não se desnudar para as coisas da vida
Preservou-se do inútil e volátil
Mas o tempo passou…
Ainda que a mocidade lhe oferecesse desejos
Cobrir-se era o seu fim último
E assim seguiu, moldado na nudez de outrora
E quebrando a nobreza de uma pobreza terrível
Mas sempre se vestindo com as cores da dignidade
E nos passeios com os pais,
O que o sobrava lá eram camisetas de ‘voltomundo’
Aqui uma saudade de doer nos ossos
Mas se com uma mão segurou a sobrevivência
Com as outras, o velho calção puído
Nilson Ericeira
(Robrielle)



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